Ovelhas Incandescentes

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sexta-feira, 24 de junho de 2011

Marcelo

Um dos primeiros dias na escola (a nova escola), tínhamos que escrever nossas primeiras impressões sobre o amiguinho do lado. E claro que você não perderia a oportunidade de tirar uma com a minha cara porque eu estava com a camiseta do uniforme da escola.
Foi um ano inteiro de piadinhas, gracinhas, broncas, lições em dupla, em trio, em conjunto e tanta risada, que a minha barriga já dói só de lembrar o tanto que eu ri.
Como aquela vez em que a cueca do Fábio estava aparecendo, eu e a Renata vimos e viramos para a frente. E aí muitas coisas aconteceram na mesma hora.

Na mesma hora a gente viu e virou para a frente, na mesma hora a gente pensou em você e viramos para falar com você sobre qualquer coisa (era só para chamar a sua atenção, de forma que você não visse a cueca do Fábio) e na mesma hora que a gente virou para falar com você, você olhou para o lado, viu a cueca do Fábio aparecendo e pronto... já fez uma zona.

E na mesma hora, eu e a Renata viramos para a frente de novo, abaixamos a cabeça na carteira e rimos até chorar, você já tinha visto o que a gente não queria que você visse, então, já era. A bagunça já estava feita.
Para melhorar, ninguém tirava da cabeça do Fábio que o motivo do furdúncio não era uma suposta tachinha colocada na cadeira dele (estava na moda aquela mania besta de colocar tachinha na cadeira das pessoas), e sim a cueca dele aparecendo.
E essa foi só uma das milhares de historinhas que a gente teria pra contar.
Teve também as vezes em que a gente brigou... mas eu não tenho nenhuma lembrança clara e completa sobre isso porque passava rápido. Depois a gente já estava um deitado no ombro do outro. Eu, você e todo mundo que estava com a gente.
No fim do 1° colegial, antes de entrarmos em férias, eu escrevi a letra de Teatro dos Vampiros no seu caderno e você disse que fazia questão de ter essa música. Só não lembro se era por causa do fim do ano ou se era porque eu já estava com planos de mudar de bairro e consequentemente (palavra que a gente, uma vez, esqueceu e trocamos por consecutivamente), de escola também.
Foi um ano e meio de convivência, de muita alegria e muita amizade. Depois eu saí da escola e o contato ficou difícil, mas a gente dava um jeito. O orkut apareceu para ajudar.
E essa é a primeira parte, totalmente verídica.

A segunda parte eu gostaria de dizer que nós todos continuamos nos falando como se nada tivesse acontecido, como se o fim do colegial, o começo da faculdade, a vida corrida de cada um não fizesse a menor diferença. Por um tempo, foi possível manter alguns encontros, depois... cada um para o seu lado cuidar da sua vida.

Eu gostaria de dizer que continuamos nos falando, conversando e dando muita risada. O nosso convívio continuou o mesmo, mesmo quando você descobriu que estava doente.
E mesmo quando você descobriu que estava doente, todos nós continuamos nos encontrando, falando da época do colégio e dando muita risada.
E mesmo quando você descobriu que estava doente, nós estávamos lá com você.
E mesmo quando você começou o tratamento, nós estávamos lá com você.
E mesmo na hora em que você poderia querer jogar tudo para o alto e falar "FODA-SE!", nós estávamos lá com você.
E mesmo na hora em que poderia doer tanto e que você não conseguia mais aguentar, e dizer FODA-SE já não era mais o suficiente, nós estávamos lá com você.
Até a hora em que não deu mais... mas nós estávamos lá para você.
E eu adoraria dizer que essa segunda parte também é verídica, mas não. Não foi. Isso era só o que eu queria dizer, mas não posso. Essa é a parte que dói mais.
E se essa segunda parte fosse de verdade, eu não sei se isso salvaria sua vida, mas quem sabe... seria menos difícil para você... e para mim também.

Que tudo esteja bem. Que o amor e a amizade permaneçam na vida de todos os que fizeram parte do nosso grupo... em qualquer lugar em que a gente esteja.




"Pois ela não queria que ele a visse chorar. Era uma flor muito orgulhosa..." (O Pequeno Príncipe

4 comentários:

  1. Amiga, comecei a ler como quem lê reminiscências do outro, confesso, sem muito interesse. No entanto, de repente, entendi, e tive que voltar atrás e reler o que antes não havia me interessado. Agora tinha outra cor. Chorei. Pelos amigos com quem perdi contato, ao longo dos anos, e pela força das circunstâncias. Pelos amigos que perdi de fato, não apenas eu, mas todos os que tinham o privilégio de conviver com eles. Enfim, mais uma vez me pegas pelo cantinho do coração. Obrigada por mais essa crônica sensível. Bjs.

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  2. Lindo. Simplesmente lindo. Abordagem perfeita, humor na quantidade certa. Um dos melhores posts do Blog.

    =]

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  3. ah Rê...
    Não tenho palavras.
    Só choro. Passei por muita coisa e sobrevivi. Agora que pensei que estava tudo bem, a endometriose veio silenciosamente. Não é grave como antes, os médicos estão agindo, mas tem muitos prós e contras no meu tratamento...Mas confio no meu Deus, está nas mãos dele, e a minha parte, estou fazendo.
    Não quero fazer pesar o que vc está sentindo. Mas na hora mais difícil, a outra Alê, que estudou comigo desde a primeira série, foi inseparável até os 15 anos, quando ela se mudou para Além Paraíba (MG), ligou num Domingo á noite buscando notícias minhas pq eu sumi do Orkut e do Blog. E meu marido conversou com ela. Na mesma hora em que terminou de falar com ele, ela ligou p meu celular. Estava como sempre ficava a noite. Deitada no meu leito, janela aberta, olhando o céu, ouvindo o louvor "Preciso de Ti", do Diante do Trono, q era a minha forma de falar com Deus e pedir p ele me sustentar. A Alê ligou eu atendi, e um misto de alegria e choro de desabafo veio. Eu não chorava pro meu marido ou minha mãe. Tentava ficar forte porque eles fazim o mesmo. Eu via que saíram ( a desculpa era q era p fumar) e choraram e me sentia na obrigação de ficar forte. passei 18 dias com o estômago doendo e regeitando qualquer alimento, devido a um cisto de 40 cm que comprimia meus orgãos, e o estômago foi quem mais tentou reagir. Por fim veio uma sonda q levava alimentação enteral até a primeira porção do intestino. Sentia ali q tudo ia começar a ficar bem, eu ia ficar forte para a cirurgia que seria grande e difícil. Depois de só me ouvir chorar, a minha amiga disse: "-Eu sei. E estou com vc, irmã. Estou longe, mas meu coração está aí." Choramos mais um pouco juntas, e depois foram quase duas horas tagarelando, rindo, lembrando do passado, fazendo planos de reunir maridos e fihlos... A Alê tb casou com um Rodrigo, imagine se tivéssemos combinado!
    A nossa outra grande amiga mora no mesmo bairro que eu. Conheceu meus filhos pq eu levei p ela conhecer, sempre relevei, sempre levei em conta o lado dela, e a procurava. Mas naquele momento, um telefonema dela faria a diferença. Os planos que eu e a Alê fizemos, e toda a conversa me deu fôlego novo. Não julgo. Mas costumo dizer que quem esteve por perto fez diferença e quem não esteve também.
    O que eu posso te dizer, é q em relação ao restante do grupo, tentem se fazer presente, mesmo de longe. O amor é o mais importante. Snetir o amor, não o toque físico, entende... Não sofra. Pelo o que li, seu amigo sabia q vc o amava.

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    1. Ele sabia, sim, Lelê, o ruim é q a gente perdeu contato mesmo... a única notícia q tive, depois de um tempão, é q ele já tinha morrido.
      E vc... vc vai botar essa endometriose e qqr coisa ruim pra correr. EU SEI!

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