Ovelhas Incandescentes

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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Passe amanhã e deixe um recado, só não espere resposta.

Festa estranha com gente esquisita não é só música da Legião Urbana. E também deveria ser "mundo estranho com gente esquisita". A gente se depara com muita gente estranha em muita festa esquisita e vice-versa.

Os legais e os que se acham legais.
Os bonitos e os que se acham bonitos.
Os inteligentes e os que se acham inteligentes.
Os que são tudo isso junto e os que se acham tudo isso junto.

E esses últimos são os piores.
Você até pode aguentar um bocó que se acha uma coisa ou outra. E sinceramente, todo mundo se acha uma coisa ou outra.
E sinceramente, de novo, muita gente é uma coisa ou outra de verdade. E todo mundo tem amigos legais de verdade, bonitos de verdade, inteligentes de verdade e tudo isso junto, de verdade.

E de verdade (para não falar sinceramente de novo), legal, bonito e inteligente é relativo.

1° - Me pergunto se fulana de tal tem amigos porque... meu, como ela é chata! Todo mundo conhece alguém que é um porre e conhece um grupinho que quer se manter longe de fulana. Ser legal vai além de ser simpático. Ser legal não é ser simpático.
2° - Nem vou falar sobre quem acho bonito ou feio, mas cara de bebê não me apetece. Boca grande e olhos claros, também não! Ser bonito vai além de ser malhado. Ser bonito não é não ser feio (e feio pra quem?).
3° - O que é uma pessoa inteligente? É quem decorou a tabuada do 7, 8 e 9? Fodeu! Ser inteligente vai além da escola (mas eu posso cantar Faroeste Caboclo inteira, se você quiser).

As pessoas falam sobre ler bons livros e ouvir boa música, mas o "boa" aí está de acordo com quem? Quem decide o que é bom e o que não é?
Eu sou a favor da leitura dos Imortais nas escolas, mas sou contra qualquer obrigação que eu (ou qualquer um) tenha de gostar de Machado de Assis e companhia. E posso dizer, com certeza, que há bastante preconceito em relação aos livros que lemos na escola, principalmente dos Imortais. Porque você já ouviu falar tão mal deles e já ouviu tanta gente desabafando e falando que o tal do Dom Casmurro (ou seja lá qual for) é um saco (e considerando gente nervosa e sob pressão porque, com certeza, teve que ler o livro pra fazer uma prova), que você já não aguenta mais ouvir o nome do livro, sem nem mesmo ter aberto o bendito.
E muita gente se acostuma com isso. Não viu, não conhece, nem sabe quem é, mas não gosta porque um monte de gente diz que é ruim. E gosta porque um monte de gente diz que é bom.

E aí porque o fodão das críticas, ainda vivo, diz que o Stephen King, não sei o que, e não sei o que mais acabou com não sei o que lá (que é tão importante para mim que nem lembro mais o que era), eu tenho que parar de gostar dele e falar "Puxa, é mesmo, Stephen King é uma droga"? Ou porque alguém falou que o Machado é bom, e mesmo que você não tenha lido nada dele, você deve sair por aí falando maravilhas dele?
Ah vai... vai encher!

Gente bonita é quem a gente acha bonita. Gente legal é quem a gente gosta de ficar perto. Gente inteligente é quem fala quando deve falar e fica quieto quando deve ficar. E tudo isso junto pode ser eu, você ou qualquer outra pessoa. Está cheio delas por aí e a maioria está fora dos holofotes.
Mande à merda quando tiver que mandar, vá à merda quando tiver que ir. As pessoas são diferentes e cada cabeça, uma sentença. Mas como pessoa física, somos os mesmos seres limitados que nasceram e um dia vão morrer, sem exceção.
Aqui embaixo do céu, ninguém é melhor do que ninguém, de forma geral. Tudo é relativo e muda de pessoa para pessoa, o tempo todo. A única constante que existe é que estamos constantemente em mudança. Vivemos em um eterno momento de reformas e somos uma obra diferente a cada dia. E nenhuma vale mais do que a outra. Portanto, não importa se alguém pós-graduado, condecorado e premiado na Universidade do Fim do Mundo de Deus acha isso ou aquilo. Na minha vida, quem tem que achar alguma coisa sou eu!
Ninguém e absolutamente ninguém, pode ditar o que eu devo ou não gostar, o que é certo ou não gostar.

E para quem acha que pode ditar o certo ou errado na vida dos outros: Passe amanhã e deixe um recado, só não espere resposta.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Nem aí, nem aqui e nem em lugar algum.

Tem gente que adora falar sobre os problemas, as doenças, as tragédias.
Se algo está bom é irreal.
Se algo está ruim é normal.

As pessoas são infelizes por  natureza, gostam de uma depressão e gostam do "dark side".
Tem gente que merece o "Horário de Pico" e até se perdem sem ele. Não sabem o que fazer sem o mal humor das seis horas da tarde, as buzinas descontroladas e o calor humano da multidão apressada e sem tempo no entra e sai de um metrô qualquer.

Se alguém fala uma coisa boa é porque sonha demais.
Se alguém fala uma coisa ruim é porque é pessimista.
Mas todo mundo quer ser bem tratado, estar rodeado de pessoas legais e educadas (e que, de preferência, te deem a preferência), receber a maior fatia do bolo. Mas ninguém quer se esforçar para isso.
Todo mundo quer ser como é e se orgulham disso. Os outros que mudem se quiserem, eu não mudarei meu jeito.

Tem gente que adora reclamar e falar mal dos outros. Gostam de mostrar como são bons, inteligentes e sábios. E o resto é o resto, são meros expectadores.
Não pense que você é a última bolacha do pacote porque elas também quebram e amolecem (o legal mesmo é ser a bolacha do meio).
Defender suas ideias não significa atacar outras.
Você tem todo o direito de gostar ou não gostar das coisas, mas antes você tem o dever de respeitar e a obrigação de entender que os outros tem o mesmo direito que você de, também, gostar ou não das coisas.

Quem se acha muito bom e cheio de razão só fica com um pacote vazio.
E no final, a tal da lei da atração está certa.
Gente que se acha superior aos outros, estão sempre rodeados de pessoas que também se acham ou querem ser e, principalmente, querem que os outros achem.
Quem é, de verdade, não está nem aí para o que possam pensar dela, porque a própria opinião já basta.
Se concorda, que bom.
Se discorda, não precisa atacar ninguém.
Você pode e deve dar suas opiniões, mas não tem o direito de impor aos outros e exigir que pensem como você.
Os outros podem ser daquele seleto grupo de pessoas que não estão nem aí. E enquanto você está empenhado em mostrar sua superioridade e sua razão, eles não estão nem aí para você. Nem aí, nem aqui e nem em lugar algum. Lamento, mas eles nem lembram que você existe.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Tudo pelas batatas. Mas tudo, mesmo!

Publicado no "Os 3 de Esparta" em 19 de Agosto de 2010.


Caminhando e ouvindo os sons do trânsito.

Para na banca de jornal, compra um guia básico da nova ortografia, porque ele não sabia nem da velha, vamos tentar com a nova (e isso se aplica a mulheres, também).
Sentiu um cheiro suspeito, disfarçadamente limpa os pés no tapete da banca.
Chegou em casa. A mãe estava no trabalho, o pai viajando, o irmão mais velho no hospital. Nada sério. Uma retirada de pedras nos rins, ou parece que tiram o rim todo, ou talvez, o que tiram é a vesícula, quando as pedras são lá, sei lá.
Mas o importante é o que importa e o que importa é que ele estava sozinho em casa, e sendo assim, poderia comer o último pacote de batatas sem ter que dividir.
Mas o telefone tocou. Era o irmão mais velho, já de alta do hospital, precisando de alguém que fosse buscá-lo.

- “Ok, batatas, depois a gente se vê”.

Ou não. Porque no exato minuto que ele virou a terceira esquina depois da padaria do primo daquele seu vizinho de cima, o andar todo explodiu.

BOOM!

Aquele seu vizinho mané, do apartamento ao lado, achou que não teria problema deixar o problema do vazamento de gás para depois.
Quando ele voltou, os dois apartamentos do andar onde moravam estavam em chamas.
Colocou as mãos nos bolsos e pensou:

- “Tudo bem, o apartamento e a mobília, o seguro cobre. Mas aquele pacote de batatas… era o último pacote de batatas”.

Já que as batatas foram por água abaixo, ou melhor, por fogo, foi para o hotel mais perto e mais barato, ler o guia sobre atualização ortográfica. Estava certo de que este seria um diferencial no debate daquela noite, dos candidatos a síndico do prédio. Este seria o primeiro passo a ser dado no que prometia ser uma promissora carreira política. Dali, poderia seguir como prefeito, governador, quem sabe até, presidente.
Mas não conseguia parar de pensar nas batatas perdidas.

Cada um com suas prioridades. Cada um com suas batatas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Era um cortiço!, Cora Coralina e outras histórias.

Regina Pessoa e Rubia Konstantyni, da "Cia Sábias Cenas". 
Dias 2 e 9 de outubro, a "Cia Sábias Cenas" apresentou no Sesc Ipiranga, o projeto "Histórias e Memórias", em comemoração ao "Dia Internacional do Idoso".
Na área de convivência do Sesc Ipiranga, a apresentação da "Cia Sábias Cenas" misturava fatos reais de moradores da cidade, memórias das pessoas que assistiam a apresentação e poesias de "Cora Coralina".
Entre as histórias, estava "Era um cortiço!", que pode ser lido neste mesmo blog e trata-se de uma história real. Tão real como dizer que a "Cinemateca" já foi o "Matadouro Municipal".
Você sabia disso? Eu só soube disso pela história que a "Cia Sábias Cenas" contou.    
Eu (como não era de se esperar), chorei. Minhas fotos também são de chorar, mas não pelo mesmo motivo da apresentação, que foi ESPETACULAR!
Regina Pessoa fala sobre a "Cinemateca", antigo "Matadouro Municipal".
Rubia Konstantyni fala sobre "O Cortiço", uma história real.
Antes, um matadouro. Hoje, a Cinemateca.
Ele se lembra da primeira namorada, "Era muito bonita".
Ele se lembra dos tempos de guerra, "Eram tempos difíceis".
Heróis não estão só nos quadrinhos.
E a chuva deu espaço ao Sol.
 A "Cia Sábias Cenas" é uma companhia de teatro criada em 2005 pelas atrizes Regina Pessoa e Rubia Konstantyni. No seu repertório, a Cia Sábias Cenas possui um espetáculo, diversas contações de histórias e projetos especiais. As atrizes se dedicam ainda a criar e produzir histórias e espetáculos customizados, conforme a necessidade de seus clientes.
Fonte: "Cia Sábias Cenas"

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Aborto: nem contra, nem a favor.

Publicado no blog "Os 3 de Esparta" em 2 de outubro de 2010.


O que se discute nesse caso não é bem o direito que a mulher tem ou não tem sobre o próprio corpo, mas o direito que ela deve ter sobre o corpo que não é dela, mas que está dentro dela.
Não defendo, nem julgo quem é a favor ou contra, mas considero algumas informações adicionais.

É justo uma mulher violentada ter um filho que não quis e que pode não ter condições físicas ou psicológicas de criar? A criança não tem culpa, mas e a mãe? Também não tem.
É justo uma mãe levar uma gravidez adiante, sabendo que ela corre riscos? É justo a mãe morrer e a criança já nascer órfã?
É justo uma mãe levar uma gravidez adiante, sabendo que a criança tem problemas e que não poderá levar uma vida normal? E por “normal”, não se trata de uma criança cega, surda ou muda, mas alguém que poderá passar a vida em estado vegetativo.
É justo uma criança virar mãe? Sendo que a maioria dessas crianças são violentadas e não tem ideia do que está acontecendo.

Por isso, sou a favor do aborto!

Mas, é justo uma pessoa ser morta, ou impedida de nascer porque os pais (sim, os dois, o casal, porque a criança não foi feita sozinha), não se preveniram, não tomaram os cuidados necessários, não fizeram o que deveriam fazer para evitar a gravidez?
É justo uma pessoa que nem nasceu pagar pela irresponsabilidade de outras duas pessoas, sendo que em muitos desses casos, essas duas pessoas são bem informadas e tem recursos para evitar a gravidez?
É justo matar quem ainda não nasceu porque faltou raciocínio e maturidade na hora de transar? Porque o tesão era tanto que foi como foi e foda-se o resto, mesmo que o resto seja uma pessoa que pode nascer dessa falta de raciocínio, maturidade e responsabilidade.

Por isso, sou contra o aborto!

E apesar dos prós e contras, há outros fatos a serem considerados, também.
A camisinha que estourou, o anticoncepcional que não funcionou, a falta de informação que, muitas vezes, é culpa dos pais, sim. Infelizmente, há pais que, por burrice, ignorância ou por proteção exagerada, não conversam com seus filhos e nem deixam seus filhos conversarem. Não ensinam, nem deixam que eles aprendam. E por isso, muitos acabam fazendo escondido, seja lá o que fizerem.
E há também, aqueles filhos que não tem pais, não tem família, não tem ninguém próximo ou com intimidade suficiente para conversar, muito menos, “cara” de chegar em alguém para conversar. E isso é bastante compreensível.

Por isso, não sou contra, nem a favor do aborto.

E por tudo isso, além do que está fora do meu conhecimento sobre esse assunto, é que o aborto deve ser analisado, não como causa (porque não é), mas como a consequência, porque alguma coisa aconteceu para que tivesse que ser feito um aborto. Ele não existe por si só, de forma isolada, por nada. Há uma situação na qual ele está envolvido, e é essa situação que deve ser analisada antes de baterem o martelo em ser contra ou a favor do aborto.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Horário de pico


Do alto, olhava a cidade lá embaixo.
Eram quase seis horas da tarde, o céu já estava escuro, os ônibus passavam cada vez mais cheios, as ruas estavam cada vez mais tumultuadas, o metrô... impossível entrar ou sair. O famoso e temido "horário de pico" se aproximava.

No livro "1984", havia a "hora do ódio". Em São Paulo, havia o horário de pico. Hora em que as pessoas evitavam sair na rua, pegar o ônibus, sair do trabalho, sair da escola, da academia, do curso e "Deus me livre", pegar o metrô.
Olhava tudo de lá de cima. Não precisava mais se preocupar com rua, ônibus, sair do trabalho, da escola, da academia, do curso, e graças a Deus, do metrô.

Nem sempre foi assim. Já passou por essa "provação". Já saiu muito mais cedo do que seu horário normal, para evitar o aterrorizante horário de pico. Já rezou ao sair do trabalho, para que, pelo menos chegasse segura em casa, mesmo que tivesse que esperar uma ou duas horas até conseguir entrar em um trem, ônibus ou o que fosse. Já vibrou a cada vagão vazio que chegava na estação Sé. Alegria de pobre é ver o vagão chegando vazio na estação Sé. E muitas pessoas devem estar rindo ao ler isso porque sabem que é verdade.

Mas no meio do aperto ainda há um alívio. Cansou daquilo que chamava vida. Se até no meio dos vagões lotados da Sé, em pleno horário de pico, ainda há um vagão que vem vazio, então o resto também se resolve.
Não desistir, não deixar de ouvir e de se fazer ouvir, não se calar (exceto nos casos em que calar a boca é fundamental e até saudável), não deixar de querer, de se arriscar, e quando necessário, ignorar.
Partiu para o tudo ou nada, com direção ao tudo. Arriscou, quis, ignorou, quis!
Faz parte das escolhas que fazemos na vida, ouvir ou não ouvir. Aceitar ou não aceitar.
Com pessoas, a mesma coisa. Há pessoas que temos que escolher se elas ficam ou saem da nossa vida.
Jogou o passado fora, ficou com o presente e se guardou para o futuro.
Essa não é uma história de moral, nem de lições, nem de nada. Cada um que a veja como quiser e como puder.
Tem coisas que só a gente para saber e para entender. Cada um sabe da sua vida, das suas vitórias e das suas derrotas. Cada um que escreva sua história com os personagens que escolher. Mas sempre, escolher.
Sempre escolher, melhorar, continuar, mudar e apagar o que tiver que ser apagado. Reescrever sua história quando for preciso e nunca deixar terminar.

Quando chegava essa hora... o famoso e enervante horário de pico, não se preocupava com mais nada.
Apenas olhava, imperturbável, a cidade lá embaixo. E agradecia por estar lá em cima.
E abençoava a cidade lá embaixo.