Ovelhas Incandescentes

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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Horário de pico


Do alto, olhava a cidade lá embaixo.
Eram quase seis horas da tarde, o céu já estava escuro, os ônibus passavam cada vez mais cheios, as ruas estavam cada vez mais tumultuadas, o metrô... impossível entrar ou sair. O famoso e temido "horário de pico" se aproximava.

No livro "1984", havia a "hora do ódio". Em São Paulo, havia o horário de pico. Hora em que as pessoas evitavam sair na rua, pegar o ônibus, sair do trabalho, sair da escola, da academia, do curso e "Deus me livre", pegar o metrô.
Olhava tudo de lá de cima. Não precisava mais se preocupar com rua, ônibus, sair do trabalho, da escola, da academia, do curso, e graças a Deus, do metrô.

Nem sempre foi assim. Já passou por essa "provação". Já saiu muito mais cedo do que seu horário normal, para evitar o aterrorizante horário de pico. Já rezou ao sair do trabalho, para que, pelo menos chegasse segura em casa, mesmo que tivesse que esperar uma ou duas horas até conseguir entrar em um trem, ônibus ou o que fosse. Já vibrou a cada vagão vazio que chegava na estação Sé. Alegria de pobre é ver o vagão chegando vazio na estação Sé. E muitas pessoas devem estar rindo ao ler isso porque sabem que é verdade.

Mas no meio do aperto ainda há um alívio. Cansou daquilo que chamava vida. Se até no meio dos vagões lotados da Sé, em pleno horário de pico, ainda há um vagão que vem vazio, então o resto também se resolve.
Não desistir, não deixar de ouvir e de se fazer ouvir, não se calar (exceto nos casos em que calar a boca é fundamental e até saudável), não deixar de querer, de se arriscar, e quando necessário, ignorar.
Partiu para o tudo ou nada, com direção ao tudo. Arriscou, quis, ignorou, quis!
Faz parte das escolhas que fazemos na vida, ouvir ou não ouvir. Aceitar ou não aceitar.
Com pessoas, a mesma coisa. Há pessoas que temos que escolher se elas ficam ou saem da nossa vida.
Jogou o passado fora, ficou com o presente e se guardou para o futuro.
Essa não é uma história de moral, nem de lições, nem de nada. Cada um que a veja como quiser e como puder.
Tem coisas que só a gente para saber e para entender. Cada um sabe da sua vida, das suas vitórias e das suas derrotas. Cada um que escreva sua história com os personagens que escolher. Mas sempre, escolher.
Sempre escolher, melhorar, continuar, mudar e apagar o que tiver que ser apagado. Reescrever sua história quando for preciso e nunca deixar terminar.

Quando chegava essa hora... o famoso e enervante horário de pico, não se preocupava com mais nada.
Apenas olhava, imperturbável, a cidade lá embaixo. E agradecia por estar lá em cima.
E abençoava a cidade lá embaixo.

3 comentários:

  1. Viajei a semana toda a serviço. Sempre a mesma preocupação antes de sair de madrugada e voltar a noite: horário de pico. "Se formos pela Dutra e Fernão Dias vai ser melhor?", "Vamos então voltar pelo Rodoanel e seguir pela Marginal Tietê!"... mas o inevitável sempre acontece... carreta tombada e trânsito parado... e eu ficava pensando, enquanto colocava meu carro em ponto morto e puxava o freio de mão, no meio daquele mar de veículos, abaixo de um céu de chumbo: "Quanto espaço existe em todo estado, em todo país! Porque cada vez mais nos esprememos e nos acotovelamos em espaços cada vez mais caros, sujos e disputados? Esprememos nossos corpos uns contra os outros mas nossos corações e mentes estão solitários e distantes..."

    Ah, a citação de "1984" foi sensacional Amiga!!!

    =)

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  2. Eu gostei do jeito que você ligou as coisas. Gostei mesmo. =]'

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  3. Isso me fez lembrar de uma certa Raquel na Barra Funda... matando um certo trabalho chamado Contax, parando lá em Jundiaí e voltando pra SP. Olhava a situação do metrô para ir até a república e andar pra faculdade - isso quando decidia ir. Essa Raquel via de tudo. Via até fantasma do ex em todo canto que andava. Isso me deu uma tristezinha, sabe? Pq o horário de pico assusta, deixa a gente com uma sensação de 'será q nunca vai ser e nunca vai dar?', 'o sonhador tem q acordar?' - vai dar pra entrar no metrô? Quando o sonhador puder acordar ele estará em casa livre de fantasmas e de pessoas 'cinzas'??? É, isso me fez lembrar do medo q eu tenho ainda de muita coisa. Principalmente da pressa. De ver a vida passar debaixo do nariz, de ver pessoas correndo, o barulho da sirene, o desespero... E eu pensando "daria tudo pra estar lá no andar de cima tb, e fechar a janela, pra amenizar o barulho". Mas pra tudo tem horário, não tem como fugir, mesmo ignorando-o. Hj eu penso, vou caminhar sem medo, mas vou caminhar, vou enfrentar, e vou mesmo, até o tal horário de pico!

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